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E daí que chegou o dia.
Não que falar de morte ou sexo seja fácil, mas ontem a coisa pegou, já que violência não é lá a minha praia.
E foi resolvida no supetão, no instinto, em frações de segundo.
Explico.
Cheguei pra pegar Isaac na escola ontem e ouvi:
- Mamãe, o coleguinha nome e sobrenome me empurrou na cadeira.
Sangue ferve, mãe tem vontade de dar meia volta e aniquilar com a criatura infanto-violenta, mas calma, respira, e lembra que essas coisas acontecem:
- E machucou filho? Você caiu?
- Não. Eu só sentei.
- E a tia viu?
- Não.
- Você contou pra ela?
- Não.
Sangue ferve de novo, mãe quer extinguir do planeta a raça das criaturas infanto-violentas e das tias que não veem.
- E você fez alguma coisa? Empurrou ou bateu no amigo?
- Não.
Sangue em ebulição e auto-controle quase indo pras cucuias. Mas mãe é bicho besta e metida a Nobel da Paz.
- Filho, é muito feio bater e empurrar não é?
- É.
- Mas a gente também não pode deixar os amigos baterem na gente.
Aí me olha a cria com o maior ponto de interrogação do universo estampado na carinhafofademeuDeus...
- Seguinte, se o colega bater ou empurrar ou fazer algo que você não goste, conta pra tia.
- Mas...
Esse mas me veio assim "e se a tia não der muita atenção, hein mamãe???"
Aí eu soltei. E quando percebi já tinha dito. E não sei se vocês aprovam ou não, mas analisando bem com todo o drama e a culpa que me cabem, tenho certeza que fiz a coisa certa...
- Aí você empurra também, e mostra pro colega que você não está alí pra ser empurrado. E que deve ser respeitado.
PAUSA
Não é loucura. Já falamos muito de respeito em casa.
E também já observei Isaac brincando algumas vezes e vi que ele meio que tem vocação pra deixar essas coisas acontecerem. Deixa que outras crianças peguem seus brinquedos e tals. E eu não quero que ele sofra por não saber se defender.
DESPAUSA
- Empurro forte?
- Não, amooor, a gente não pode machucar os amigos, nem ninguém, certo?
- Certo.
E fez-se um bico. Daqueles recordistas.
- Filho, só uma coisinha... Toda vez que acontecer algo que você não goste você pode vir falar para a mamãe, ok? Eu vou te ajudar do jeito que der e a gente resolve o problema.
Sorriu de novo, aliviado, mas o bico ficou alí e começa um choro.
Todo seguro filhote resmunga com os olhos cheios de lágrimas:
- É que o papai falou que eu tenho nariz de tuuuuurco....
- Hein?
- Ele falou que eu tenho nariz de tuuuuurco....
PAUSA
DESPAUSA
Diante da reclamação do Isaac, o que falar?
- Ô filho, porque você está chorando? Nariz de turco não é uma coisa ruim. Seu papai tem nariz de turco e é lindo.
- Mas eu não queeeeeero...
- Vou te contar uma coisa: o seu nariz é bem pequenininho, não tem nada de turco.
Filhote sorriu mas olhou desconfiado.
E eu tentei tirar aquela dúvida do ar:
- O que você acha do nariz da mamãe?
- Não é de turco.
- Pois eu acho que, mesmo o nariz do papai sendo lindo, o seu nariz é mais parecido com o meu. O que você acha?
Aí ele me responde com a voz fanha de tanto apertar e esfregar as cavidades nasais:
- Eu acho que o meu é pequenininho, pequenininho.
- Então tá filho. Você entendeu?
- Entendi... Mas você conta pro papai que o meu nariz não é de turco?
...