Já falei N vezes das amigas de infância que conheci pela blogosfera.
A Ceiloca é uma delas.
Queriiiida de tudo. Uma das grandes incentivadoras do "Viajando".
Mulher de palavras fortes. Firme nas idéias.
Enfim, admiro, sou fã.
Acontece que conversamos sobre o segundinho. Compatilhamos a vontade de aumentar a cria. Eu e ela.
Ceiloca saiu na frente.
Triste verdade.
E depois de ler tudo o que minha querida amiga desabafou no canto dela, me vi, assim, com vontade de falar sobre isso também.
Percebi que ainda tem muita coisa aqui querendo ser colocada pra fora.
Já conversei com bastante gente. Gente mãe, gente terapeuta, gente pai, gente amiga, gente interessada ou não no assunto.
Mas parece que sempre tem alguma coisinha lá, cutucando.
E hoje, bem cedinho, depois de anos do meu último aborto, vi que trata-se de uma metamorfose.
Não, Ceiloca, não vou ficar tentando te convencer que "vai passar, vai doer mas as coisas melhoram".
Vou só colocar aqui que aborto não é mais uma palavra que me assusta.
Não! Não quero nunca mais passar por isso. Nem quero que você ou alguém passe.
Mas aborto pra mim é um capítulo. Páginas que algumas de nós temos que enfrentar escrever, rabiscar, rasurar. E assim ir rascunhando como serão as próximas histórias.
A dor ficou diferente. Dias mais intensa, dias quase inexistente.
Sei que as frases desse capítulo não vão ser apagadas. Mas podem ser lidas e transformadas num conto, numa crônica, num relato.
Essas palavras podem dar força e podem enfraquecer dependendo da vontade e do estímulo.
E um dia, lá não se sabe quando, vão se tornar um capítulo, entre tantos outros que compõem a nossa exitência, materna ou não.
Vai despertar o interesse de ser aberto ou lido novamente. Ou vai ficar lá, fechado, calado, ignorado. Como já fiz muitas vezes.
Mas, por outro lado, minha amiga, você falou dos questionamentos que temos o direito de fazer.
E é aqui que esse post fica menos poético e não menos realista.
Durante a dor, o luto, a perda, as dúvidas ficam caladas.
E é aí que muito médico deixa de esclarecer os X e os Y de todas as questões que envolvem um aborto.
Eu ouvi da primeira vez: "Aborto espontâneo, tentamos novamente em alguns meses".
Espontânea então foi a minha vontade de trocar de médico, de ter respostas, de saber o motivo.
Questionamos, assuntamos, analisamos, fomos examinados, concluímos.
Não deixamos quieto.
Mesmo assim precisei passar por mais um aborto, mesmo com todos os cuidados, mesmo com um médico excelente.
Aí fomos encaminhados a um especialista em "aborto de repetição".
Mais uma vez questionamos, fomos examinados, analisados, revirados, consultados e decidimos enfrentar uma maratona de injeções, consultas e etecéteras.
Aí me pergunto.
Se eu (estimuladíssima pelo senso crítico do maridex) não tivesse me dado o direito de questionar, quantos capítulos assim eu não teria escrito?